Sessão Comemorativa - 30 anos - 25 de Abril
Mandato 2002 - 2005



Sessão Comemorativa - 30 anos - 25 de Abril

Nota introdutória

Ex.mo Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Dr. Pedro Santana Lopes, Ex.mo Presidente da Direcção da Associação 25 de Abril, Coronel Vasco Lourenço, Militar de Abril que aqui saúdo, nesta Assembleia democrática que existe porque houve uma revolução em 1974, Ex.mo Senhores Representantes dos Grupos Municipais e Representantes dos Partidos Políticos, Ex.mo Senhoras e Senhores Vereadores, Ex.mas Senhoras e Senhores convidados e minhas Senhoras e meus Senhores.

Em primeiro lugar, quero agradecer, em meu nome e em nome da Assembleia Municipal, aos Senhores oradores, por terem acolhido favoravelmente o nosso convite para participar nesta sessão solene comemorativa dos 30 anos do 25 de Abril.

Agradeço também a presença das Senhoras e Senhores Vereadores, dos eleitos das freguesias, de todos os convidados e munícipes presentes.
Minhas Senhoras e meus Senhores,

É já possível, à distância de trinta anos, consensualizar que a Revolução de 25 de Abril de 1974 é o acontecimento libertador com maior duração e desenvolvimento na sociedade portuguesa. A revolução de 1383/85, a restauração da independência em 1640, a revolução liberal de 1820 e a instauração da República em 1910, são outros acontecimentos fundamentais da história de Portugal, como prolongamentos vitais da conquista da nacionalidade e da sua afirmação popular e patriótica.

Estes foram clarões ímpares na história do nosso país, logo seguidos de períodos imensos, de apagada e vil tristeza, de abandono do essencial que era necessário cumprir, na esteira de levantamentos populares inolvidáveis, em que a coragem e a generosidade do povo português mereciam melhor sorte e soluções adequadas aos seus anseios, expectativas e propostas.

Em 1958, nas eleições para a Presidência da República, a campanha de Humberto Delgado personificou o profundo descontentamento e a revolta contra o regime fascista, marcando indelevelmente o futuro de Portugal.
Seguiram-se a repressão salazarista, a emigração em massa para a Europa e a guerra colonial - e a luta clandestina e semi-clandestina dos trabalhadores, dos estudantes e de todos os democratas, que teve os seus pontos mais altos em 1962 e 1963.

O ano 1969 foi, para muitos milhares de portugueses, provavelmente o sobressalto maior, de coragem e de afirmação de um povo, prenunciando o que veio a acontecer em Abril de 1974.
Homens, mulheres e jovens, trabalhadores e estudantes, tinham crescido imenso nessa década e introduziram na vida de todos nós a vontade profunda de mudar para outra coisa que não fosse ignorância, atraso, tristeza e exploração desenfreada.

Desse ano, ficaram experiências vitais, organização e vontade imensa de derrubar o fascismo, que criaram condições para que muitos milhares das forças armadas ganhassem consciência, em Portugal e em África, que era necessário construir um novo destino para este país e este povo.

Podemos dizer, hoje, que houve vários caminhos que foram percorridos nesses anos, de 1969 até 1974, em a repressão se acentuou, a nossa vida ficou mais vigiada e perigosa, mas a luta das forças revolucionárias e democráticas e dos movimentos de libertação em África teve novos desenvolvimentos, assim como a consciência cívica e moral de civis e militares foi crescendo, para que fosse realizada a revolução de 25 de Abril, que alguns queriam controlar e julgar antes de acontecer.

Naquele primeiro dia das nossas vidas em liberdade, a coragem imensa dos militares de Abril, dos quais permitam que destaque, e aqui recorde, Salgueiro Maia, pela ética e nobreza do seu carácter, teve resposta digna e exemplar do povo desta cidade, finalmente corajoso e límpido, a conduzir, com os milhares democratas e revolucionários, o golpe que estava a ser dado no fascismo para uma imensa revolução de ruas cheias de gente, de gritos e abraços, de participação heróica e de comoções inolvidáveis. Foram dias imensos de coragem, de amizade, de destruição de um regime que não teve, naquelas horas decisivas, o mínimo de nada que não fosse cobardia e fuga.

Minhas Senhoras e meus Senhores,
Sabemos que, a uma imensa esperança, a tantos acontecimentos notáveis, se vem sucedendo, ano após ano, um pouco mais de destruição de Abril e da nossa vontade de progredir em liberdade e democracia. Não há outro caminho positivo, para este país e para este povo, que não seja o da vida democrática e participada, do trabalho produtivo e criador, da reafirmação ética e moral dos valores fundamentais do país e da Constituição da República. Mas é um facto que perdemos imenso em dignidade e gosto de viver, em trabalho com direitos e enriquecedor, em práticas que nos elevem à situação de seres dignos e orgulhosos da condição de humanos e de construtores do que de mais elevado nos é exigido, na nossa vida quotidiana e na história deste país que temos de continuar a erguer.

Uma questão fundamental é a da participação activa e cidadã, entre cada acto eleitoral. E essa questão, cabe a todos nós ajudar a resolver, os eleitos e os não eleitos, que afinal somos todos eleitos da democracia e do amor à liberdade, à paz e ao futuro. Nestes dias de festa e de reflexão tantas vezes pouco aprofundada, cabe-nos a todos dar mais passos no sentido de recuperar a esperança, de privilegiar a ética e a honra, para que a palavra que empenhamos seja sempre dignificadora e única, a que corresponde à nossa natureza de cidadãos que têm ou não têm partido, mas que sabem assumir as suas responsabilidades quotidianas e históricas com uma só cara - a da vontade imensa de continuar a construir Abril, trinta anos depois, no sentido daquela pureza inicial que nos fazia sorrir e correr para o lado dos outros, os que finalmente eram nossos irmãos no sonho, na utopia e na vontade imensa de rasgar horizontes sem fim. Queremos criar bem-estar e trabalho para todos, construir a independência económica, social, políticas e cultural deste povo e com este povo, que aí está, e aí estará, com certeza, apto a ser de novo corajoso e a romper com o passado mais antigo ou mais recente.

Amamos Portugal e amamos a democracia, a liberdade e os direitos fundamentais que é necessário e urgente repor e reconstruir. Estamos com o povo de Lisboa, desta cidade digna e corajosa, que saberá sempre encontrar o seu destino maior, ao lado do país, no caminho da participação democrática e da transformação histórica e decisiva que é necessário levar a cabo, de novo e sempre.

Hoje, torna-se necessário reflectir sobre o papel fundamental do poder local democrático na construção da democracia, em especial dos órgãos deliberativos, para que não sejam mais esvaziados de poderes e conteúdos, para que deixem de os atacar e desvalorizar, para os defendermos e impulsionamos no sentido de uma maior participação dos eleitos, das populações e instituições representativas da cidade em que vivemos. E quero saudar, nesta sessão solene de comemoração de Abril, a participação decisiva dos eleitos de todos os Grupos Municipais, no dia-a-dia da Assembleia e das Comissões Permanentes e Eventuais, como quero saudar a cooperação institucional com a Câmara Municipal de Lisboa e com todos os órgãos da Cidade. Sem esquecer um agradecimento muito especial e profundo aos trabalhadores da Assembleia Municipal, pela actividade intensa e dedicada que desenvolvem connosco, para bem de Lisboa e do seu futuro.

"Não há machado que corte a raiz ao pensamento", cantávamos naqueles dias e noites antes do 25 de Abril de 1974, em Caxias, já sem medo dos guardas dos vigilantes nos corredores e nas guaritas que cercavam a prisão. Tal como era premonitório o cravo vermelho que vinha sempre junto com as encomendas que as famílias nos faziam chegar, quando para isso eram autorizadas. Ter memória é fundamental para avançar. E, digo-vos, como podereis dizer do mais límpido dos vossos cérebros e corações, que é mil vezes melhor estar livre, que é infinitamente mais compensador e estimulante, sempre, combater em liberdade e erguer, nas diferenças que nos caracterizam e legitimam, um Portugal democrático, digno e maior que todos ansiamos e merecemos.

Muito obrigado pela vossa atenção.

António Modesto Navarro

Presidente
da Assembleia Municipal de Lisboa





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