Candidatura Fado a Património Humanidade
09 de Junho de 2010

No âmbito da aprovação da proposta n.º 190/2010, relativa à apresentação da candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade, em Sessão Ordinária da Assembleia Municipal de Lisboa, realizada no dia 1 de Junho de 2010, foram produzidas as seguintes intervenções:
 

Prof. Dr. Rui Veira Nery, Presidente da Comissão Científica da Candidatura do Fado   |PDF|

Dra. Sara Pereira, Directora do Museu do Fado |PDF|

Deputada Municipal Luísa Vicente Mendes (PS),
na qualidade de Presidente da Comissão Permanente de Cultura, Educação, Juventude e Desporto |PDF|

Presidente da Câmara Municipal de Lisboa  |PDF|

Vereador Victor Gonçalves  |PDF|

Vereador Ruben de Carvalho  |PDF|

Vereador António Monteiro  |PDF|

Deputada Municipal Virgínia Estorninho  |PDF|

Deputada Municipal Luísa Vicente Mendes |PDF|

Deputado Municipal Modesto Navarro |PDF|

Deputado Municipal Maria Clara Silva |PDF|

Deputado Municipal João Bau |PDF|

Deputado Municipal Gonçalo Câmara Pereira |PDF|

Deputado Municipal John Rosas |PDF|

 

 

No âmbito da aprovação da proposta n.º 190/2010, relativa à apresentação da candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade, em Sessão Ordinária da Assembleia Municipal de Lisboa, realizada no dia 1 de Junho de 2010, o Senhor Professor Doutor Rui Vieira Nery, Presidente da Comissão Científica da Candidatura do Fado, produziu a seguinte intervenção:


Senhora Presidente da Assembleia Municipal, Senhor Presidente da Câmara, Senhores Vereadores, Senhores Deputados, minhas Senhoras e meus Senhores, queridos amigos.

É uma grande alegria para mim pessoalmente, e para a Comissão Científica da candidatura do Fado, poder estar aqui hoje a prestar-vos contas do nosso trabalho e a pedir-vos o vosso apoio para uma campanha que está agora só a começar, que vai ser uma campanha difícil e em que vamos precisar de estar todos juntos, como temos estado até aqui, em torno desta causa que nos une.

Eu gostaria de vos falar de várias coisas muito sucintamente. A primeira delas é sobre o próprio conceito de património cultural imaterial, tal como ele é encarado pela UNESCO, para nós percebermos do que é que estamos a falar.

Eu passo regularmente pelos blogs e pelos artigos de opinião e tem havido alguns mal-entendidos relativamente ao que se pretende com esta candidatura e à natureza da própria candidatura.

A UNESCO, praticamente desde a sua fundação, criou um programa de reconhecimento de Património Cultural da Humanidade que num primeiro momento foi inundado por grandes obras arquitectónicas ocidentais: grandes catedrais, grandes castelos, grandes palácios na sua maioria europeus, com algumas franjas extra-europeias da antiguidade e houve uma dada altura em que o consenso dos países da UNESCO foi a de que havia um peso eurocêntrico demasiado grande neste conceito de património material, em que parecia que só o Ocidente tinha construído coisas importantes para a representação simbólica cultural da humanidade, e logo aí já houve uma recentragem do programa, de maneira a reconhecer outros tipos, outras tradições, outros contributos fundamentais doutras culturas para este "corpus" colectivo, esta espécie de mosaico sempre em fabrico, que é o Património Cultural da Humanidade.

Mas mesmo assim, houve uma altura em que a UNESCO compreendeu, ou fizeram-na compreender, que não se podia julgar os contributos para o Património da Humanidade apenas pelos edifícios, pela pedra, e que havia contributos fundamentais para a identidade cultural da Espécie do Planeta, que vinham de coisas que não eram construídas com materiais sólidos, mas que eram mais sólidas do que muitos dos palácios, dos castelos, das catedrais e dos templos que tinham sido classificados.

E daí que se tivesse criado esta categoria de Património Cultural Imaterial, ou seja, tudo aquilo que tinha a ver com grandes tradições de tradição cultural, que um pouco por todo o mundo, representavam facetas muito ricas dos contributos das várias culturas para o destino colectivo da humanidade.

Esse projecto esteve em vigor com características muito restritivas num primeiro momento, porque era uma espécie de World Wild Life Found aplicado à cultura, portanto, era só o que estivesse mesmo à beira da extinção é que seria classificado, e depois a própria UNESCO sentiu a necessidade de mais uma vez repensar o programa, e em 2003, depois de um longo processo de negociações como é típico nestas coisas das grandes organizações internacionais, aprovou a Convenção sobre o Património Cultural e Imaterial da Humanidade, ao abrigo da qual nós vamos apresentar esta candidatura.

O Fado, enfim, não é este o espaço para fazer uma história do Fado, é nessa área que eu trabalho, mas isso é uma coisa muito complexa e muito lenta, mas digamos que, grosso modo, há alguns pontos fundamentais. As primeiras referências à sua prática em Lisboa aparecem por volta de 1830, há uma fase em que aparece restrito às zonas populares portuárias da Cidade durante as primeiras décadas. Depois, nas décadas de 1860/70, começa a expandir-se para o Teatro de Revista, para a prática musical das próprias classes médias. Nós lembramo-nos todos daquelas heroínas do Eça de Queiroz, como a Luísa do Primo Basílio, que tocavam ao piano as áreas de ópera da Luci de la Mermur e o Fado do Vimioso, e isso dá bem a ideia de como o Fado foi entrando noutras classes sociais que já não eram aquele núcleo duro, do proletariado portuário da Cidade de Lisboa.

E esse processo de expansão foi continuando gradualmente. Há uma fase no final do século XIX e na viragem para o XX, em que o Fado está muito associado aos movimentos republicanos e aos movimentos operários, quer em Lisboa, quer depois pouco a pouco, numa extensão pelo País. Entretanto com o aparecimento da gravação discográfica a partir de 1902, e depois com as rádios a partir da década de 20, a expansão é cada vez mais de banda larga e vai-se divulgando cada vez mais ao território nacional no seu todo.

Tem uma grande fase de institucionalização com a criação da rede das Casas de Fado, nos anos 30, 40, em particular, já desde o final da década de 20, mas sobretudo nos anos 30, 40, 50. E entra numa fase que é simultaneamente de grande desenvolvimento, mas ao mesmo tempo de crise social se quisermos, na década de 60 com um movimento de debate alargado muito grande sobre legitimidade do próprio Fado.

No contexto muito extremado da luta política em Portugal, houve posições marcadamente ideológicas que discutiram o Fado, não pela sua qualidade poética e literária, não pela sua autenticidade como expressão da cultura popular portuguesa, mas pelas posições políticas que artificialmente lhe eram coladas num sentido ou noutro.

Eu sou da geração que apanhou essa herança de forma directa, e felizmente escapei à acção nefasta desse debate muito esquizofrénico, pela simples razão de que sou filho de um grande fadista e, portanto, tive a sorte de, simultaneamente, poder estudar ópera e música barroca e ouvir a Amália Rodrigues e o Carlos do Carmo em minha casa, sem que isso para mim fosse uma contradição de consciência.

Mas na realidade, esta cisão e este debate muito feroz em torno do Fado, que até a uma dada altura parecia anunciar que o género ia pouco a pouco arriscar-se a desaparecer, começa a cicatrizar de uma maneira saudável, sobretudo nos últimos vinte e cinco anos.

Eu acho que é bonito ver - eu sou historiador e portanto tenho o defeito de fazer cronologias - que para esse esforço todas as forças políticas da democracia portuguesa contribuíram. Eu lembro-me do Eng.º Nuno Abecasis, que em meados dos anos 80, condecorou, pela primeira vez, a Amália Rodrigues, a Hermínia Silva e o Alfredo Marceneiro, num gesto importante de consagração da importância do Fado como símbolo da Cidade de Lisboa.

Lembro-me da Lisboa'94, um momento importantíssimo em que o Comissário responsável pela música popular, Ruben de Carvalho, da CDU, teve uma acção importantíssima na promoção de actividades ligadas à difusão do Fado, e em particular na exposição, "Fado Vozes e Sombras", comissariada pelo Joaquim Pais de Brito, que foi um grande passo em frente para o estudo e divulgação modernos do Fado.

Depois, em 98, o Presidente João Soares abre a Casa do Fado e da Guitarra Portuguesa, e em 2004, logo a seguir à aprovação da Convenção da UNESCO sobre o Património Imaterial, o Presidente Pedro Santana Lopes anuncia a intenção de candidatar o Fado à lista representativa do Património Cultural Imaterial da UNESCO, nos termos da convenção então aprovada.

Não era possível apresentar ainda formalmente essa proposta, mas essa foi uma iniciativa importante e o Dr. Pedro Santana Lopes nomeou imediatamente duas figuras chave para esta candidatura, que foram os dois Embaixadores da candidatura, o Carlos do Carmo e a Mariza, e o Carlos do Carmo tem sido sempre a figura tutelar deste esforço que nos tem envolvido a todos, depois o Eng.º Carmona Rodrigues formalizou o protocolo entre a EGEAC e o Instituto Etno-musicologia para o processo todo de investigação e de levantamento que foi sendo começado há cinco anos a esta parte e do qual decorreu a candidatura, e o Dr. António Costa tem prosseguido este apoio de uma forma intensa, atenta e empenhada, e, por último e por todos, a proposta da candidatura foi apresentada à Câmara Municipal de Lisboa e aprovada por unanimidade por todas as forças políticas.

São raras as ocasiões na nossa democracia de encontrarmos esta capacidade de cruzamento de esforços em torno de um objecto comum, que é claramente de interesse patriótico e de interesse para a defesa da cultura portuguesa, e portanto nós estamos muito orgulhosos de estar associados a um exemplo de capacidade de cruzamento em torno de um objecto da cultura portuguesa com esta força e com esta complexidade, mas também com esta promessa de bons resultados.

O trabalho começou com a nomeação de uma Comissão Científica composta pela Dra. Sara Pereira, Directora do Museu do Fado, pela Prof.ª Salwa Castelo-Branco Presidente do INET e por mim próprio como seu Presidente, e também se baseou muito no apoio dado pelo Conselho Consultivo do Museu do Fado, constituído pelo Carlos do Carmo, pelo Vicente da Câmara, pelo Gilberto Grácio, pelo Luís Penedos, pelo Luís de Castro, pela Julieta Estrela, pelo Daniel Gouveia, pelo António Chaínho e pela Luísa Amaro.

Ou seja, mais uma vez aqui também houve um cruzamento muito importante desde o princípio, que foi pegar nos académicos e nos investigadores universitários e pô-los a trabalhar e a aprender com as pessoas que vêm do terreno e que fazem no dia a dia o Fado. Portanto, não houve aqui nem a invasão dos doutores que tomaram conta do terreno, nem houve, por outro lado, a rejeição por parte das pessoas do terreno em relação aos investigadores. Encontrámos campos de trabalho comuns, acho que aprendemos todos uns com os outros, e sem este cruzamento de todos esta candidatura e o trabalho que a preparou não teria sido possível.

A candidatura, nos termos da convenção da UNESCO, exige várias pré-condições. Exige, em primeiro lugar, uma pré-condição de representatividade, ou seja, que o objecto cultural que está a ser proposto, neste caso o Fado, seja reconhecido antes de mais pela própria comunidade que o propõe como um símbolo identitário.

E aí nós tivemos realmente uma preocupação muito grande de garantir essa legitimidade, não só pela nossa preocupação de envolver a comunidade do Fado de uma forma muito directa, mas também, como a Dra. Sara Pereira vos explicará, com uma rede de protocolos que faz com que as associações de bairro, as colectividades de cultura e recreio, os sítios dos bairros populares de Lisboa onde o Fado é uma tradição residente e enraizada, que essas instituições representativas digam publicamente: "interessa-nos esta candidatura, reconhecemos esta candidatura, o Fado é o nosso retrato e nós reconhecemos o retrato que a candidatura está a enviar".

Por outro lado, temos naturalmente o importantíssimo apoio formal da Câmara, mas também depois uma série de protocolos com todas as instituições que são detentoras de património documental para o estudo do Fado: bibliotecas, arquivos audiovisuais, arquivos sonoros, colecções iconográficas, todas as instituições, quer nacionais, quer municipais, quer privadas, que têm património, têm espólios documentais nesta área, fizeram, praticamente todas já, protocolos com a candidatura no sentido de viabilizar estes fundos.

Portanto, a representatividade interna é clara, e representatividade externa é nisso que temos que trabalhar, mas temos um capital assegurado. Como dizia a Senhora Presidente, o Fado é internacionalmente associado à imagem cultural de Portugal, essa é uma associação positiva e calorosa e nós vamos ter de trabalhar nessa dimensão.

Mas a UNESCO não quer produtos chauvinistas que sejam uma espécie de bandeiras isoladas no contexto das culturas, quer consagrar as expressões culturais que sejam também expressões de diálogo com as outras culturas. Portanto, a nossa preocupação é também mostrar como o Fado, desde as suas origens, foi sempre um espaço multicultural, aberto ao contacto com as outras culturas, aberto às aprendizagens. Incorporou componentes que vêm das danças afro-brasileiras do século XVIII, princípios do Século XIX, incorpora componentes regionais portuguesas que acorreram à Cidade de Lisboa com a emigração interna que se foi processando ao longo de todo o século XIX e que se foi reformulando, reformatando o próprio perfil populacional de Lisboa e foi criando uma cultura popular nova na Cidade de que o Fado foi um espelho. E ao longo da sua evolução foi sempre interagindo com outras músicas do mundo.

Hoje em dia, justamente um dos aspectos mais interessantes é este aspecto que o Fado tem demonstrado de, simultaneamente, ser fiel a si próprio, às suas raízes, às suas tradições, ao seu legado, e de ser capaz de conversar com outras músicas de uma forma criativa sem perder a sua identidade, e ao mesmo tempo ir aprendendo e ensinando com as outras músicas, o que é um sinal de vitalidade.

A última questão que a UNESCO exige é a questão da salvaguarda. Não se punha aqui o problema do risco de extinção da espécie, porque realmente, graças a Deus, o Fado está de boa saúde e recomenda-se, e dá todos os sinais de estar em plena expansão, com cada vez mais jovens fadistas, guitarristas, violistas, compositores e poetas a escreveram, a cantarem e a tocarem, e portanto, há um boom imparável que não faz prever qualquer risco imediato.

Mas há um risco grave de perda de memória, e isso é que é o lado preservacionista que nós queremos assegurar. A ideia de que as fontes que preservam a memória da evolução do Fado nestes últimos dois séculos não se podem perder como se estavam a perder. Têm que ser estudadas, têm que ser digitalizadas, têm que ser disponibilizadas, têm que ser publicadas. E essa é a parte fundamental da candidatura.

A UNESCO é a cereja em cima do bolo. Quem tem de fazer o bolo somos nós e este apoio sistemático das sucessivas Vereações da Câmara de Lisboa permitiu que uma equipa de jovens investigadores, muito dedicada, fizesse um trabalho de recolha que eu me permito dizer, excluindo-me a mim próprio naturalmente, que considero extraordinário porque nós temos uma base de dados sobre gravações de Fado desde 2002 que já tem largos milhares de títulos, temos um levantamento de bibliografia de edições de partituras de Fado, de edições de poemas, de levantamento de iconografia do Fado, a uma escala que não existia até hoje. E estamos a aprender, todos os dias com isso, cada vez mais sobre o Fado.

Vamos chegar à candidatura com um trabalho de casa já feito, com um projecto arquivístico muito importante, que levanta toda essa informação, que a disponibiliza, que a digitaliza, que vai utilizar as novas tecnologias para dar acesso a essa informação, com um grande programa de edições que vai pôr cá fora, disponível para toda a gente, edições de Fado, de texto de música, estudos importantes que estavam esgotados, colecções de iconografia de Fado, e, portanto, podemos chegar à UNESCO e dizer: "estamos a tomar conta da nossa casa, ajudem-nos a pôr a placa à porta".

E é basicamente isso que nós queremos. Isto não é nenhum concurso, não vamos ter nenhum prémio, mas queremos ter e vamos ter - eu costumo dizer, desculpem a informalidade da expressão, nós não jogamos a feijões - nós estamos a jogar para ganhar e estamos convencidos que a candidatura vai ser bem sucedida. Temos muito trabalho pela frente, de empenho nesta relação muito sólida que formámos com a comunidade em torno do projecto da candidatura. É muito importante para nós estarem aqui tantas figuras importantes do Fado, tantas figuras vivas, tantos mestres que sabem tanto sobre Fado e que estão aqui connosco a apoiar-nos.

Queremos continuar a desenvolver esse trabalho. É muito importante o esforço que vamos ter de fazer através do Governo português, através das nossas embaixadas, para sensibilizar as delegações nacionais da UNESCO para as negociações difíceis, lentas, penosas que antecedem sempre a decisão final, mas estamos convictos de que vamos chegar a bom resultado.

E para esse bom resultado, a aprovação que eu confio que surgirá da Assembleia Municipal, com toda a força e toda a legitimação que isso nos dá, será certamente o elemento fundamental para mostrar à UNESCO. Essa tal legitimidade que está no coração da própria candidatura. Eu queria agradecer a vossa atenção e queria passar a palavra à minha colega Sara Pereira, que vos vai falar do plano de salvaguarda, das medidas concretas da candidatura.

 

No âmbito da aprovação da proposta n.º 190/2010, relativa à apresentação da candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade, em Sessão Ordinária da Assembleia Municipal de Lisboa, realizada no dia 1 de Junho de 2010, a Sehora Doutora Sara Pereira, Directora do Museu do Fado, fez a seguinte intervenção:

Senhora Presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Senhores Vereadores, Senhores Deputados, minhas Senhoras, meus Senhores.

É uma honra estar aqui a apresentar aquele que será o Plano de Salvaguarda da candidatura do Fado à lista representativa do Património Cultural e Imaterial da Humanidade.

Tal como referiu o Senhor Presidente da Comissão Científica, o Prof. Doutor Rui Vieira Nery, esta candidatura prevê um plano integrado de salvaguarda da memória do Fado, um plano que se estrutura em torno de cinco linhas estratégicas de acção.

A primeira, a do envolvimento da sociedade civil, quer através das entidades detentoras de acervos relevantes para o estudo do Fado, entidades museológicas e arquivísticas, instituições responsáveis pelo estudo e pela preservação do património, ou quer através de entidades que representam os interesses da comunidade do Fado, dos agentes culturais e do público.

Uma segunda linha de acção, muito sumariamente, um programa educativo muito vasto que promoverá a integração do Fado nos currículos escolares do ensino básico ao ensino superior, numa perspectiva integrada, e gradual naturalmente.

Uma terceira linha de acção que se prende com toda a investigação realizada desde 2005 até aos dias de hoje, que permitirá implementar agora um vasto programa de edições.

Uma quarta linha estratégica prende-se com a revitalização dos espaços do Fado, profissionais e amadores da Cidade de Lisboa, a sua dinamização através da implementação de roteiros temáticos.

E, finalmente, uma estratégia de promoção e de difusão do universo do Fado a nível nacional e internacional.

Todo este plano cruza, ao longo das suas várias acções, dos seus vários eixos estratégicos, o conhecimento académico e cientifico e a perspectiva multidisciplinar da academia, com o saber fundamental e o conhecimento dos próprios artistas. Todos eles, interpretes, músicos, compositores, autores e agentes culturais, serão chamados a participar e terão aqui, no desenvolvimento deste Plano de Salvaguarda, uma participação activa e efectiva.

Portanto, relativamente a este envolvimento da sociedade civil, estamos, tal como disse o Senhor Prof. Rui Vieira Nery, em fase de conclusão de protocolos com várias entidades de carácter museológico ou arquivístico, e entidades também representativas dos interesses da comunidade do Fado, agentes culturais e público.

Elas aqui (no power-point) estão por ordem alfabética: temos a Academia da Guitarra Portuguesa e do Fado e a Associação Portuguesa dos Amigos do Fado, ambas integrantes e parte activa do Conselho Consultivo do Museu do Fado, a Associação Fonográfica Portuguesa, a Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto, a Fundação Amália Rodrigues, o GDA - Direitos dos Artistas, o Inatel, a Rádio Amália, o Sindicato dos Músicos, o Sindicato dos Trabalhadores de Espectáculos, a Sociedade Portuguesa de Autores e a Voz do Operário.

Ao nível dos arquivos, temos um conjunto de entidades muito diversificado, desde arquivos e museus tutelados pelo Instituto de Museus e Conservação pelo Ministério da Cultura, ou museus tutelados pela Câmara Municipal de Lisboa, através do seu Pelouro da Cultura, e temos também duas universidades: a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, através do Instituto de Etnomusicologia que tem sido um parceiro fundamental deste projecto, desde 2005, presidido pela Profª. Salwa Castelo-Branco também elemento da Comissão Científica, e um outro protocolo, em fase de conclusão, vai ser fechado com a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a clássica, através do seu Instituto de História de Arte, designadamente no âmbito dos estudos pós-graduados de Arte e Património.

Temos aqui vários arquivos. O Arquivo de Nacional de Imagens em Movimento, o Arquivo Fotográfico Municipal, a Biblioteca Nacional, a Cinemateca Nacional, a Direcção-Geral de Serviços Prisionais, a Fonoteca Municipal de Lisboa, o Gabinete de Estudos Olisiponenses, a Hemeroteca Municipal de Lisboa, e os seguintes museus: o Museu e Arquivo da RTP, o Museu da Cidade, o Museu da Música, o Museu do Fado, o Museu José Malhoa, o Museu da Etnologia, o Museu do Teatro, o Museu do Traje, a Rede Municipal de Bibliotecas, e também aqui a Voz do Operário que tem, como sabem, um arquivo fantástico para o estudo do Fado na viragem para o século XX.

Aqui temos alguns exemplares da iconografia, partituras ilustradas por Stuart Carvalhais, e estas por Amarelhe, e porque este Plano de Salvaguarda não começou do zero, nós vamos integrar neste dossier de candidatura uma perspectiva daquilo que se tem feito ao longo dos últimos 10/12 anos, integrando as medidas em curso para a salvaguarda do património do Fado.

Desde logo a criação do Museu do Fado naturalmente, em 1998, Museu para o qual convergiram, como sabem, os espólios de centenas de personalidades do universo do Fado; a Fundação Amália Rodrigues, criada no ano seguinte; a publicação de uma obra fundamental, uma espécie de bíblia para todos nós que estudamos o Fado e que nos apaixonamos pelo Fado, o livro "Para uma História do Fado", de Rui Vieira Nery, em 2004.

Enfim, para vos dar uma ideia a história do Fado anterior a esta tinha sido publicada em 1903, por Pinto de Carvalho, também conhecido por Tinope.

Como sabem, em 2005, a EGEAC e a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova, estabeleceram um protocolo que veio desenhar as linhas de cooperação entre o Museu do Fado e o Instituto de Etnomusicologia, ao abrigo da candidatura do Fado à UNESCO.

No âmbito desse protocolo e com as equipas que entretanto se criaram, foram realizadas dezenas de entrevistas etnográficas aos artistas, foram identificados os acervos relevantes para o estudo do tema na posse de variadíssimas instituições, foi sistematizada toda a informação em bases de dados específicas: bases de dados de arquivos, de bibliografias, de fonogramas, de reportórios e de etnografia.

Procedemos, naturalmente, a uma releitura crítica das fontes históricas, à sensibilização de instituições e particulares para as boas práticas de conservação dos testemunhos físicos do Fado, e, ainda ao abrigo deste protocolo, decorrem dois projectos de investigação desenvolvidos em parceria com o Instituto de Etnomusicologia, um primeiro dedicado e intitulado "Estudo da Indústria Etnográfica em Portugal no Século XX", e o segundo "O Fado no Século XX", uma abordagem multidisciplinar do património cultural intangível.

Ainda no âmbito das mesmas medidas, há que referir o filme do prestigiado realizador Carlos Saura, em 2007. Também a conclusão do primeiro documentário televisivo sobre a "História do Fado", uma série de seis episódios, uma co-produção entre a EGEAC e a RTP, que veio de facto promover, pela primeira vez na história da televisão portuguesa, uma série consagrada à história do Fado, com um guião da autoria do Prof. Rui Vieira Nery, e narrada, protagonizada, por Carlos do Carmo. Irá para o ar, esperamos, em Setembro deste ano.

Também temos de referir o Congresso Internacional "Fado, Percurso e Perspectivas", realizado em 2008, em parceria com a Universidade Católica Portuguesa, o CEPCEP, e a Universidade Nova de Lisboa, uma vez mais o Instituto de Etnomusicologia.

A própria renovação e valorização do circuito expositivo do Museu do Fado, realizado ao abrigo de uma candidatura ao "Programa Operacional da Cultura", revestiu-se já desta nova perspectiva de entendimento do Fado como um património imaterial, intangível, efémero, incorpório se quiserem. E por isso se abandonaram conceitos expositivos anteriores, se trouxeram as obras de arte para o Museu, se introduziram postos de consulta, se introduziram as histórias de vida dos artistas ao longo da própria exposição, e a possibilidade de audição de dezenas e dezenas de fados.

Uma outra acção fundamental, tratou-se da aquisição, pelo Estado Português, no ano 2009, de uma colecção privada de 5.000 fonogramas de fado de 78 rotações. Trata-se de uma aquisição em regime de co-propriedade entre a Câmara Municipal de Lisboa e a EGEAC, e o Ministério da Cultura.

Também os protocolos de cooperação institucional com entidades diversificadas que tem vindo a ser desenvolvidos desde 2009, e, finalmente, a publicação da "Enciclopédia da Música Popular Portuguesa" dirigida pela Profª. Sawra Castelo-Branco, em 2010, e a respectiva publicação on-line na base de dados da música popular portuguesa, um instrumento também ele de referência fundamental para quaisquer estudos que se façam sobre o Fado.

Passemos então às medidas de salvaguarda propostas na candidatura à lista representativa do Património Cultural e Imaterial da Humanidade.

Desde logo, a criação e a formalização de uma rede de arquivos, uma rede de cooperação estratégica institucional, com objectivos de salvaguarda, estudo, investigação e fruição do património do Fado, integrando todas as instituições e arquivos de que falamos atrás.

Um arquivo digital de fonogramas de Fado é outra das grandes apostas desta candidatura, um arquivo digital que centralize a informação áudio dos registos existentes na posse das diferentes instituições. Referimo-nos aos registos em suporte de 78 rotações, 33 ou 45 rotações por minuto.

Um programa educativo. Este programa é bastante vasto, tem como objectivo central poder vir a integrar gradualmente o Fado nos currículos escolares do ensino básico ao ensino superior, e tem de espelhar ele próprio um cruzamento muito sólido entre aquilo que é a perspectiva científica e académica, e aquilo que é o conhecimento essencial da comunidade do Fado, dos detentores desta arte.

Todos eles serão chamados a participar neste programa. Estão em curso várias iniciativas desenhadas por eles, ao longo das quais eles próprios se encarregarão de transmitir a sua memória, de desenhar o próprio programa pedagógico de seminários e de workshops diversificados.

Este programa educativo vai passar, naturalmente, por um reforço da actividade da escola do Museu, através dos seus cursos de guitarra portuguesa, viola de fado, seminários de poesia de fado e ateliers de canto, seminários e workshops no Museu do Fado no sentido de criar um programa regular de debate e reflexão no seio da própria comunidade, em que a própria comunidade passa o testemunho às gerações actuais e às gerações vindouras. As visitas cantadas ao Museu do Fado terão naturalmente continuidade.

Ao nível da construção da guitarra portuguesa, prevemos a atribuição de bolsas plurianuais a formandos seleccionados pelos dois grandes mestres em actividade, Gilberto Grácio e Óscar Cardoso, e, enfim, a ideia é que esses formandos possam futuramente garantir a continuidade desta arte, e possamos nós trabalhar para implementar uma oficina de construção de guitarra no Bairro de Alfama, nas proximidades do Museu.

Também a programação de exposições temporárias consagradas à arte dos guitarreiros e à construção da guitarra portuguesa, será outra das estratégias fundamentais do projecto.

Estamos também a trabalhar no sentido de elaborar programas educativos dirigidos aos diferentes níveis do ensino básico e secundário, designadamente através da elaboração de materiais pedagógicos, de seminários de formação de formadores, da implementação de um projecto-piloto educativo em escolas do ensino básico e secundário da Cidade de Lisboa, de uma promoção ainda mais regular das visitas da comunidade escolar ao Museu.

Estamos em articulação com várias escolas de ensino artístico, a nível local e nacional. Queremos apostar na formação técnica e científica de especialistas, e temos estes protocolos com estas duas universidades de que vos falei, e também com a Escola Superior de Artes e de Música, do Porto, ao abrigo dos seus estudos pós-graduados de audiovisual para a produção de documentários sobre o Fado.

Vamos naturalmente promover novas edições do Congresso Internacional do Fado, apostar na formação da comunidade no sentido de uma sensibilização às boas práticas dos testemunhos físicos: fotografias, cartazes, enfim, através de acções de sensibilização a decorrer em vários locais da Cidade, e continuar com uma programação regular de conferências alusivas ao tema.

Ao nível das edições, e fruto de toda a investigação realizada desde 2005, vamos implementar um programa editorial de fontes históricas, designadamente "O Fado, Canção de Vencidos", "Os Ídolos do Fado", "A História do Fado", "A Triste Canção do Sul", todas estas obras com estudo prévio de Rui Vieira Nery, e "O Fado e os seus Censores", de Avelino de Sousa, com estudo prévio Paulo Lima. Portanto, trata-se de edições faccimiladas de obras de referência para a história do Fado.

Temos também previstas outras edições literárias, ensaios históricos e analíticos, depoimentos, catálogos de fontes documentais, como, por exemplo, "O Fado no Ensaio e na Ficção", "Antologia das Abordagens ao Fado pelos escritores e pensadores relevantes da cultura portuguesa, entre 1850 e 1950", também com selecção e estudo prévio de Rui Vieira Nery, "O Catálogo da Discografia de Fado", de 1902 a 1926, da responsabilidade da equipa de investigadores do Instituto de Etnomusicologia, dirigido por Sawra Castelo-Branco, uma "Antologia de Histórias de Vida", com uma selecção de entrevistas a figuras marcantes da história do Fado, também da responsabilidade da equipa de investigadores do Instituto de Etnomusicologia, e com notas de apresentação do Conselho Consultivo do Museu do Fado.

Ao nível das fontes musicais, temos previstas antologias faccimiladas de partituras impressas de fado, de 1857 a 1910, um primeiro volume, e um segundo de 1910 a 1945; reeditaremos, também com a transcrição do Prof. Manuel Morais, a edição moderna de um manuscrito de fados e danças de salão para bandolim e viola; uma antologia de partituras do reportório de fado estrófico, com a selecção e estudo prévio de José Manuel Osório e Rui Vieira Nery; antologias de fados/canção de meados do século XX. Fontes poéticas também. Como vêem é um programa de acções bastante vasto. "A Lírica do Fado Antes da Censura"; uma antologia de "Poesia para Fado", de 1857 a 1926; e, um segundo volume, "A Era de Ouro da Poesia de Fado", uma antologia de poesia entre 1926 e 1950. Antologias de fontes iconográficas, na pintura portuguesa do século XX e no universo da ilustração portuguesa do século XX, e outras edições.

Nestas outras edições temos também prevista a reedição de várias obras fundamentais do Dr. Ruben de Carvalho, designadamente a reedição do livro "As Músicas do Fado", e a reedição, que gostaríamos de levar a cabo, de dois volumes da sua autoria, da colecção "Um Século do Fado", da Ediclube. Temos também prevista a reedição do catálogo "Fado, Vozes e Sombras", coordenado pelo Joaquim Pais de Brito, e as actas do Congresso Internacional "Fado, Percursos e Perspectivas".

Ao nível das fontes sonoras, para além de edições que estão ainda em fase de estudo, foi já publicada, no ano passado como muitos de vós saberão, a colecção "Amália Nossa", com coordenação científica do Prof. Rui Vieira Nery, que saiu com o jornal Público, e a colecção "Os Fados da Alvorada".

Uma das apostas da candidatura é a atribuição do selo da candidatura a edições de reconhecido mérito e de reconhecida relevância para o reconhecimento histórico do Fado.

Ao nível do audiovisual, para além do documentário de que já aqui falamos, que irá para o ar este ano na RTP, "Trovas antigas, saudades loucas", teremos, no próximo dia 7 de Junho, a apresentação do documentário "Fado Celeste", da autoria de Diogo Varela Silva, e prevemos a realização de dois documentários, um consagrado à guitarra portuguesa, e outro consagrado a uma voz maior do Fado e muito querida de todos nós, Argentina Santos.

Com vista à revitalização e à dinamização de alguns locais do Fado profissional e amador da Cidade, estamos também a trabalhar em roteiros temáticos que permitam, de facto, revitalizar alguns desses espaços, não só as casas de fado mas também as colectividades com grande peso na tradição fadista na Cidade, e que muitas delas têm ainda hoje uma acção educativa bastante importante, com escolas de carácter amador muito activas. E, assim sendo, um eixo importante deste projecto passará pela implementação de roteiros do Fado que contribuam, efectivamente, para uma revitalização destes espaços.

Finalmente, ao nível da promoção do universo do Fado, a nível nacional e internacional, algumas acções. O documentário de que já falamos, uma programação de workshops e seminários por todo o País, da responsabilidade dos próprios artistas. Enfim, serão eles porque, como já disse, e este é um aspecto bastante importante, o envolvimento dos artistas no desenvolvimento e no cumprimento deste Plano de Salvaguarda tem de ser inequívoco.

Temos prevista a promoção de materiais específicos de divulgação para circulação em universidades, museus, centros culturais, fundações, entre outros espaços, e um programa de divulgação internacional que terá de ser desenvolvido através da rede de Embaixadas, eleitorados, em cooperação com o Instituto Camões e com o Ministério dos Negócios Estrangeiros

 

No âmbito da aprovação da proposta n.º 190/2010, relativa à apresentação da candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade, em Sessão Ordinária da Assembleia Municipal de Lisboa, realizada no dia 1 de Junho de 2010, a Sr.ª Deputada Luísa Vicente Mendes, Presidente da Comissão Permanente de Cultura, Educação, Juventude e Desporto, produziu o seguinte relatório:  

  "A Comissão Permanente de Cultura, Educação, Juventude e Desporto reuniu em 24 de Maio de 2010, para análise da Proposta n.º 190/2010 (Candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade).

O Fado é uma forma artística (poética e musical) dos finais do século XIX com uma estrutura poética fixa (quadras, quintilhas, sextilhas e décimos) em versos de redondilha maior, decassílabos ou dodecassílabos, com uma harmonia fixa e melodia livre.

O Fado é uma forma de cantar, ou de declamar, de raízes bem portuguesas com uma particular singularidade nas chamadas artes performativas do mundo.

A Comissão Permanente de Cultura, Educação, Juventude e Desporto estando de acordo com a candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade recomenda:

A definição do objecto de candidatura, ou seja, a definição clara da identificação do que deve ser protegido e do que é permitido inovar de forma totalmente independente;

A criação de directrizes sobre a protecção de património material existente, nomeadamente os registos de Fado desde as primeiras gravações.

Acrescenta-se que a nomeação do Fado para esta candidatura protege esta forma única de expressão portuguesa.

Saudando a apresentação desta Proposta, a Comissão considera que a mesma está em condições de ser discutida e votada em plenário.

Este relatório foi aprovado por unanimidade, estando ausentes os representantes do CDS/PP e a Deputada Municipal Independente."

 

No âmbito da aprovação da proposta n.º 190/2010, relativa à apresentação da candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade, em Sessão Ordinária da Assembleia Municipal de Lisboa, realizada no dia 1 de Junho de 2010, o Sr. Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Dr. António Costa, fez a seguinte intervenção:

Senhora Presidente, Senhoras e Senhores Deputados Municipais. É para mim uma tripla honra dirigir-me neste momento à Assembleia Municipal.

Em primeiro lugar, porque me cabe começar a apresentação de uma proposta, que é subscrita por mim, pelo Dr. Pedro Santana Lopes, pelo Vereador Ruben de Carvalho e pelo Vereador António Carlos Monteiro.

Em segundo lugar, porque é uma proposta que, como vimos, resulta de um longo trabalho que remonta, pelo menos, aos trabalhos iniciados no tempo da Lisboa'94, e que foram desde então prosseguidos, quer com a decisão do Dr. Pedro Santana Lopes da formalização desta candidatura, quer pela continuidade que lhe soube dar o Prof. António Carmona Rodrigues, quer pelo trabalho que desde Agosto de 2007 tem vindo a ser prosseguido e que agora encontra um momento alto com a submissão desta proposta à Assembleia Municipal.

Mas uma honra também porque o reconhecimento formal e internacional, por parte da UNESCO, do Fado como merecedor de inscrição na lista do Património Imaterial da Humanidade, é certamente a melhor homenagem que podemos prestar a todos aqueles que desde o tempo em que o Fado começou a ser cantado nas tabernas da "má fama" que o Malhoa pintou, até aos mais distintos palcos do mundo, onde as vozes do Fado hoje o levam, fizeram o poema, a música, o som da guitarra e da viola, e deram a voz ao Fado que nós todos amamos e respeitamos.

Lisboa tem o privilégio, único e raro, de ter uma forma musical própria e única que a identifica como tal. Se nós pensarmos um pouco o que é que Lisboa tem de único, recordamos certamente a posição geográfica única da Cidade de Lisboa, que nos fez na história, e nos faz hoje, uma ponte entre culturas, entre continentes, porta de entrada nos oceanos.

Certamente uma orografia própria que nos proporcionou um estuário único, as colinas que em conjunto definem um sistema de vistas e uma luminosidade que são uma marca da nossa Cidade.

Gostamos também de convocar uma cultura, que imaginamos ancestral, de Cidade aberta, tolerante, cosmopolita, aberta aos outros.

Certamente algum do património edificado, como a Torre de Belém ou os Jerónimos, marcas inconfundíveis do nosso património, ou conjuntos edificados como a Baixa de Lisboa.

Mas certamente todos reconhecemos o Fado como um elemento identificativo da Cidade de Lisboa.

Jorge Sampaio falou-nos muitas vezes da importância de sentirmos um patriotismo de cidade, de nos sentirmos parte comum de uma comunidade e os seus elementos identificativos como emblemas da nossa existência.

Nunca o fez e nunca o devemos fazer, como disse há pouco o Prof. Rui Vieira Nery, numa lógica de exclusão ou numa lógica chauvinista. Pelo contrário, devemos sentir como elemento do nosso patriotismo de cidade, essa missão universalista que tantas vezes marcou a nossa história e marcou a nossa forma de estar no mundo.

Nos dias de hoje, nos dias da globalização, só serão relevantes as cidades que sejam capazes de se inserir nas grandes redes globais da comunicação. Mas só serão relevantes nessas redes globais da comunicação, aquelas cidades que tiverem algo de próprio, algo de único, algo de seu a oferecer aos outros nessas redes globais da comunicação.

E é por isso que não há nenhuma contradição entre querermos ser universalistas e querermos a defesa daquilo que é nosso e o reconhecimento do nosso próprio património. É por isso que não há nenhuma contradição em querermos ser Capital dos Oceanos, mas sermos Lisboa uma Cidade dos Bairros, porque é na identificação, na afirmação e na valorização daquilo que nós temos de especifico, que nós melhor saberemos ser universais nesta era da globalização.

É por isso que da mesma forma que nós nos abrimos aos outros, da mesma forma que nós gostamos de dançar o samba ou as mornas, que gostamos de ouvir o dedilhar da citra, é da mesma forma e com a mesma paixão que nós nos abrimos aos outros para que os outros também descubram aquilo que é próprio de nós nas vozes dos nossos fadistas, na música do nosso Fado ou no dedilhar da viola e da guitarra à portuguesa.

Está um longo percurso percorrido, que aqui nos foi sumariado pelo Prof. Rui Vieira Nery, e quero aqui agradecer à Comissão Científica, ao Conselho Consultivo do Museu do Fado, à Equipa Técnica, à EGEAC, e à Directora do Museu do Fado muito em particular, todo o trabalho que foi feito, e que nos permite dizer que mesmo que a candidatura corresse mal, a candidatura já tinha valido a pena pelo muito e muito que foi feito de levantamento iconográfico, de levantamento fonográfico, de construção estereográfica, de parceria com a universidade, de desenvolvimento do Museu do Fado, e de estímulo e promoção do Fado em Portugal e de promoção do Fado no mundo.

Temos pela frente um trabalho muito aturado. Em primeiro lugar, porque esta candidatura não é uma candidatura a um prémio, é um compromisso que nós assumimos connosco próprios, e perante o mundo através da UNESCO. O compromisso de valorizarmos, protegermos, salvaguardarmos e promovermos esse elemento fundamental que é o Fado. E é por isso que, tão importante como o trabalho diplomático para obter o reconhecimento da UNESCO, é um empenho inquebrantável que todos temos que ter para levar a cabo este Plano de Salvaguarda, essencial à afirmação do Fado como Património Universal da Humanidade.

Sabemos bem as dificuldades desta candidatura. A candidatura do Tango, recentemente reconhecida pela UNESCO, teve uma primeira apresentação que não foi bem sucedida.

Sabemos que hoje é mais difícil ainda a apresentação das candidaturas, tal o número de candidaturas que se vão multiplicando um pouco por todo o mundo, e é por isso que é absolutamente essencial concentrarmo-nos em prosseguir este trabalho durante os próximos anos, com a mesma qualidade e o mesmo afinco que foi desenvolvido em todo este percurso.

Sabemos bem que o Fado é a Canção de Lisboa, mas que o Fado já é mais do que a Canção de Lisboa. É uma canção do País, e se nos identifica a nós identifica também, e muito, Portugal.

E é por isso que, sendo esta uma candidatura municipal, da iniciativa do Município, aprovada na Câmara e espero que na Assembleia Municipal, deve contar com o apoio de todos os outros órgãos de soberania. E por isso nos dirigimos ao Governo, à Assembleia da República e a Sua Excelência o Senhor Presidente da República, para que apoiem e patrocinem esta candidatura.

Saibamos estar todos à altura do desafio que se nos põe. Mas é um desafio para o qual encontramos um estímulo, um estimulo não só naquilo que o Fado foi e é, mas naquilo que nós percebemos que o Fado continuará a ser, tal a forma pujante como hoje se vai apresentando, surgindo todos os anos novas vozes, masculinas e femininas, novos guitarristas, novos intérpretes, novos poetas, novos autores, novo Fado que dá vida sempre ao Fado, a Canção da Cidade de Lisboa.

 

No âmbito da aprovação da proposta n.º 190/2010, relativa à apresentação da candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade, em Sessão Ordinária da Assembleia Municipal de Lisboa, realizada no dia 1 de Junho de 2010, o Sr. Vereador Vítor Gonçalves, fez a seguinte intervenção:  

Senhora Presidente da Assembleia, Senhores Membros da Mesa, Senhor Presidente da Câmara, caros colegas Vereadores, Senhores Deputados Municipais, estimado público, homens e mulheres do Fado aqui presentes, jornalistas.

É com todo o prazer - embora com alguma surpresa para mim na medida em que, sinceramente, não pensava intervir nesta reunião - que aqui intervenho mais uma vez, neste lugar da Assembleia Municipal, que durante muitos anos foi sujeita a intervenções minhas, umas naturalmente melhores outras piores, mas é com muito prazer que aqui volto.

E ainda por cima para falar sobre uma questão que é de consenso generalizado, uma proposta que é subscrita por todos os partidos representados na Câmara, que naturalmente irá ser aprovada por toda a Assembleia Municipal, e com certeza irá ser aprovada por aclamação, já que ela merece ser aprovada por aclamação de forma a que tenha, na sociedade lisboeta e na sociedade portuguesa, o impacto que merece o seu desenvolvimento futuro.

Foi já aqui muito falado sobre os percursos que esta candidatura do Fado a Património Imaterial da Humanidade teve. Ela iniciou-se no mandato do Dr. Pedro Santana Lopes, mas todos os partidos e todos os Presidentes subsequentes entusiasticamente se entregaram ao seu desenvolvimento.

Portanto, não é uma proposta de ninguém, não é uma proposta de um partido, não é uma proposta de quem quer que seja, mas é uma proposta de todos os representantes na Câmara e na Assembleia Municipal de Lisboa.

E estou convencido que é uma proposta de toda a Cidade de Lisboa, porque o Fado é, há muito tempo, um património de Lisboa. É, há muito tempo, um património de Portugal, e se esta candidatura tiver êxito, apesar das dificuldades aqui referidas pelo Sr. Presidente da Câmara no desenvolvimento e na aprovação final desta candidatura, vai ser com certeza, e todos o desejamos, um Património da Humanidade.

E merece-o por tudo aquilo que representou, não só em relação à expressão cultural e artística que esta canção de raiz urbana representa, como também a todo o envolvimento, a toda a promoção que o próprio Fado fez da Cidade de Lisboa ao longo de muitos anos.

Recordo-me, como Vereador do Turismo da Câmara Municipal de Lisboa, que em todas as capitais onde havia representações de Portugal, onde havia manifestações de promoção de Portugal, aparecia sempre um fadista ou uma fadista que era ouvida e escutada com toda a atenção, por todos aqueles que, mesmo não percebendo uma palavra, adoravam a forma, adoravam a expressão, adoravam o ritmo que o fado representa.

É, portanto, uma proposta que com toda a certeza terá êxito. E é com todo o gosto que, em nome do PSD, a subscrevemos e lhe auguramos o melhor futuro. Esperemos que daqui a algum tempo possamos todos, com alegria e satisfação, manifestar o aplauso que teve em relação à sua consignação como Património Imaterial da Humanidade.

 

No âmbito da aprovação da proposta n.º 190/2010, relativa à apresentação da candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade, em Sessão Ordinária da Assembleia Municipal de Lisboa, realizada no dia 1 de Junho de 2010, o Sr. Vereador Ruben de Carvalho fez a seguinte intervenção

Muito obrigada Senhora Presidente, muito obrigado e saudações a todos os Senhores Deputados e aos outros colegas Vereadores.

Eu gostaria de fazer três observações, duas pequenas e uma um bocadinho mais extensa. A primeira é que aquilo que se está a passar hoje, e que esta Assembleia Municipal irá considerar e para a qual irá dar sem dúvida um passo importante, é fruto, antes de mais nada, de uma realidade. É que houve, há e continuará a haver quem canta, quem toca e quem escreve Fado. Poderíamos estuda-lo, poderíamos escrever sobre ele, poderíamos propô-lo, poderíamos fazer tudo o que quiséssemos, se não houvesse fadistas, se não houvesse cantores, se não houvesse guitarristas, se não houvesse poetas, se não houvesse músicos, não havia Fado. E esses são hoje, sem dúvida, os que estão de parabéns.

A segunda questão que gostaria de vos dizer, é que o passo que estamos a dar hoje aqui completa um processo longo. Um processo que, seguramente, é aquele que as minhas primeiras palavras brevemente referiram. Mas mais em concreto, reflecte um outro que, curiosamente, tem um conjunto de protagonistas que ao longo de praticamente 15 anos se entrecruzaram numa feliz coincidência de circunstâncias.

Há 17 anos constituiu-se, como todos se recordarão, a Sociedade Promotora de Lisboa'94 - Capital Europeia da Cultura, que resultou de uma invulgar confluência de esforços entre o poder municipal, a Câmara Municipal de Lisboa, nessa altura presidida pelo Dr. Jorge Sampaio, e o Poder Central, através da Secretaria de Estado da Cultura, nessa altura dirigida pelo Dr. Pedro Santana Lopes, hoje Vereador desta Câmara Municipal, de que já foi Presidente.

Essa confluência de esforços resultara particularmente profícua mas não ficou só por aí. Outras circunstâncias revelaram-se igualmente proveitosas e frutíferas. Um dos Comissários da Lisboa'94 foi a Dra. Simonetta Luz Afonso, hoje Presidente desta Assembleia Municipal, na altura Presidente do Instituto Português de Museus, que, coincidindo com esta circunstância, nomeou, como Director do Museu Português de Etnologia, o Prof. Joaquim Pais de Brito, e essa nomeação veio a revelar-se particularmente importante.

E finalmente foi possível constituir um grupo de trabalho para um projecto chamado Fado, que foi um primeiro passo, e a meu ver um passo felizmente pioneiro na conjugação de dois elementos determinantes, que foram já aqui assinalados como seguramente um dos aspectos mais positivos de tudo aquilo que aconteceu. Foi conciliar o estudo, a investigação, a análise de carácter científica e académica, com o saber, a experiência, o gosto e a paixão de quem faz, quem vive, quem viveu, quem continua a viver e canta o Fado.

Constituiu-se, nessa altura, uma Comissão de que fez parte exactamente o Prof. Joaquim Pais de Brito, de que fez parte o fadista Carlos do Carmo, de que fez parte o fadista José Manuel Osório, de que fez parte o saudoso editor discográfico Manuel Simões, um dos primeiros editores do Fado em Portugal, de que fez parte o Prof. António Firmino da Costa, autor de um dos primeiros trabalhos de investigação sobre o Fado no Bairro de Alfama, e de que fez também parte a Prof. Salwa Castelo-Branco, hoje membro da Comissão Científica, que já aqui foi referida.

A presença da Prof.ª Salwa Castelo-Branco foi particularmente importante, porque introduziu uma experiência particularmente rica, pela sua preparação científica e académica, que foi a experiência da investigação da música popular e tradicional, pela sua preparação científica obtida nos Estados Unidos com as elevadas graduações académicas que de lá trouxe.

O trabalho conjunto desta Comissão contribuiu para diversas iniciativas, de que se destacaram a exposição, "Vozes e Sombras" e respectivo catálogo no Museu Nacional de Etnologia; um conjunto de espectáculos de pequenas e grandes dimensões, fosse no Coliseu, por exemplo, com o fadista Carlos do Carmo ou com a Amália Rodrigues, foi de resto o último espectáculo público da fadista Amália Rodrigues; a publicação de outros materiais. Mas, fundamentalmente, abriu-se caminho para juntar estas duas entidades determinantes, o que veio a consolidar-se com a abertura, poucos anos depois, do hoje designado Museu do Fado.

E quero confessar aos meus amigos, que possivelmente não têm a mesma opinião que eu, de que eu discordo da designação Museu do Fado. Eu sou dos que continuam a achar que se deveria chamar Casa do Fado e da Guitarra Portuguesa, porque Museu do Fado seria uma coisa que já estivesse morta, e Casa do Fado e da Guitarra Portuguesa é de alguma coisa que seguramente está, como hoje se prova e demonstra, bem viva.

Ora bem, o que é facto é que o Museu do Fado cresceu, tudo cresceu, o desenvolvimento do Instituto de Etnomusicologia da Universidade Nova de Lisboa deu lugar ao aparecimento de uma série de jovens, ainda estudantes e hoje já licenciados, mestrados e mesmo doutorados, que deram um impulso de particular valia a toda esta realidade, e temos hoje concretizada uma coisa, e a caminho uma outra.

Uma que temos concretizada é que o Fado, que talvez, se nós olharmos bem, há 16 anos atrás não estivesse tão bem de saúde como isso. Hoje está pujante com candidaturas ou sem elas. Hoje, como já aqui foi dito e referido, é uma realidade conhecida, estudada, respeitada, que ultrapassou quezílias, dúvidas, debates que tiveram a sua razão de ser, que foram frutificantes nas opiniões que foram vertidas, que deram conclusões que valeram a pena e que ainda hoje, possivelmente, são a raiz de discordâncias que, felizmente, continuam a existir, e isso só demonstra que o Fado está vivo, que o facto existe, tem novos cantores, tem novos interpretes, tem novos ouvintes, tem um público, é uma realidade viva.

Faz todo o sentido, assim, que a Câmara Municipal, por iniciativa tomada pelo Dr. Pedro Santana Lopes, quando Presidente, tenha promovido esta candidatura.

Mas a terceira e pequena coisa que quero dizer, é apenas que o principal está feito e já não volta atrás. É que até pode ser, e oxalá assim não seja, que a candidatura enfrente algumas dificuldades, mas o importante da candidatura foi o trabalho que nos foi exposto como já feito e fundamentalmente o programa de trabalho que nos foi exposto para ser feito, não só do ponto de vista académico, como aquele que todos nós temos a certeza que vai ser feito pelos cantores, pelos poetas, pelos guitarristas, pelos homens e mulheres que, cada vez mais jovens, fazem o Fado.

 

No âmbito da aprovação da proposta n.º 190/2010, relativa à apresentação da candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade, em Sessão Ordinária da Assembleia Municipal de Lisboa, realizada no dia 1 de Junho de 2010, o Sr. Vereador António Carlos Monteiro fez a seguinte intervenção 

 Senhora Presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, Senhores Membros da Mesa, Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e colegas Vereadores, em particular gostaria de saudar aqueles que assinam comigo também esta mesma proposta, Senhores Deputados Municipais.

Esta é, provavelmente, a primeira e única vez que verão um Vereador da oposição a responder aqui por uma proposta da Câmara. É inédito, e não é demais sublinhar que isso acontece de forma inédita porque estamos a falar de algo que é importante para todos, e que é uma honra estar aqui, perante a Assembleia Municipal, a propor a candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade.

Sou uma oposição rigorosa, dura mesmo quando tem que ser, mas é importante registar que o Fado nos une a todos, e une-nos este interesse da Cidade em que esta candidatura tenha sucesso.

Não tenho idade para ter estado envolvido na Lisboa Capital Europeia da Cultura, nessa altura era uma criança, estava ainda na escola, mas estive envolvido na primeira proposta que foi aprovada para a candidatura do Fado, e é evidentemente com grande agrado que aqui estou para a conclusão desse processo que foi iniciado em mandatos anteriores.

E é de registar que esta candidatura foi prosseguida, independentemente dos protagonistas, independentemente dos partidos, independentemente das maiorias. Foi, conforme disse, algo que nos uniu a todos.

E o Fado é importante. É importante para a nossa cultura, é importante para a nossa identidade, é importante para a nossa história, em particular para a história da nossa Cidade, é importante para a música.

O Fado é uma realidade que se mantém viva, com novos artistas, com novos valores que se juntam aos consagrados, de que alguns estão aqui presentes e gostaria de saudar também.

É importante para o turismo, é importante para a nossa economia e para a nossa vida enquanto Cidade. É importante para as colectividades, é importante para as casas de fado, e é importante que hoje em dia nos tenhamos reconciliado com o Fado, porque sabemos que nem sempre foi assim. Sabemos que alguns dos vultos maiores do Fado, como a Amália, sofreram com isso.

Porque o fado não é uma ideologia! Sabemos que houve tempos em que era considerado uma expressão conservadora, de direita, até houve quem lhe chamasse fascista. O Fado não é nada disso, o Fado pode ser ao mesmo tempo aristocrático e do povo, porque o Fado, na realidade, é de todos. Podemos ter académicos a estudar o Fado e ter o povo a cantá-lo, podemos ter Fado que atravessou a Monarquia passou para a República, que cruzou o Estado Novo e que hoje em dia está vivo em democracia.

E esta reconciliação é importante. É importante porque o Fado é a mais genuína manifestação da alma portuguesa. O Fado é de todos, é neste momento da Câmara Municipal de Lisboa, espero que daqui a pouco seja também da Assembleia Municipal de Lisboa, e por isso gostamos que todos se associem, desde logo os órgãos de soberania, a Presidência da República, a Assembleia da República e o Governo a esta iniciativa que é de todos nós.

Por isso, gostaria de terminar apelando a que esta proposta seja aprovada por todos os partidos da Assembleia Municipal.

 

No âmbito da aprovação da proposta n.º 190/2010, relativa à apresentação da candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade, em Sessão Ordinária da Assembleia Municipal de Lisboa, realizada no dia 1 de Junho de 2010, a Senhora Deputada Municipal Virgínia Estorninho (PSD), fez a seguinte intervenção:

Exma. Senhora Presidente da Assembleia, Senhor Presidente da Câmara, Senhoras e Senhores Deputados, Ilustres fadistas.

Vamos hoje aqui analisar a proposta 190/2010.

Desejamos nós, PSD, defender o nosso património, edificado, escrito, cantado ou falado é uma obrigação de todos e cada um de nós, em especial os poderes políticos e as autarquias para a manutenção de todas as nossas tradições. No caso do Fado, torna-se imperativo, tanto mais, que no mundo globalizado e tecnológico em que vivemos, nos chegam aos ouvidos todos os géneros musicais, quase em tempo real. Pelo que defender, preservar e divulgar o Fado torna-se uma obrigação nacional.

O PSD felicita a Câmara Municipal de Lisboa, o Senhor Presidente e todos os Vereadores que subscreveram esta proposta de candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade, pela oportunidade desta candidatura. Cada vez se torna mais necessário preservar a identidade do Fado, como canção genuinamente portuguesa e evitar a sua adulteração com outras formas de música. É a nossa cultura que esta proposta defende.

O Fado? É um estilo musical exclusivamente português, criado na Cidade de Lisboa, a qual continua a ser o local com maior tradição. Tem dois séculos de história, no entanto no início do século XX, converteu-se em canção nacional, expandiu-se também pelas ex-colónias e hoje pelo mundo, primeiro pela voz de Amália e hoje na voz de muitos e muitos jovens cantores. Há estudiosos que dizem que em Cabo Verde o Fado deu origem à morna. Não sei. No entanto, para Coimbra foi o Fado levado pelos estudantes lisboetas, que cantado por eles ganhou um estatuto autónomo.

Também no Ribatejo existe um grande tradição do Fado, tomou um estilo próprio, muito ligado às lides do campo e tauromaquia, a que se chama o Fado Marialva.

Há três fados-tipo que servem de base a todos os outros: o Mouraria, o Menor e o Corrido, e a partir daí tudo se improvisa ao estilo do cantor, sempre igual ou quadras, quintilhas ou sextilhas.

O Fado para ser bem cantado tem de o ser com o coração e com sentimento e para tal é preciso, ter amado e ter sentido. É o que muitos dos nosso fadistas que aqui se encontram têm.

Os temas ligados ao Fado são muito variados: o amor, a traição, os trabalhos, os grandes crimes, os desastres terrestres e marítimos, a morte de personagens célebres, a nostalgia, as descrições de esperas de touros, expressões de malícia, entre outros.

Da origem do Fado, ninguém sabe. Existem muitas teorias: que terá as suas origens nos cantos mouriscos de Lisboa! O que se sabe é que o Fado, de uma expressão artística dos bairros humildes de Lisboa, identifica hoje musicalmente todo o País.

O Fado, tem servido para relatar histórias e angústias do povo, lançar críticas ao poder instituído. Subiu aos salões, tornou-se assim uma canção de todos os portugueses: povo e aristocracia.

O Fado acompanhado à guitarra e à viola, desenrolando-se num universo muito peculiar, com um estilo musical próprio, perfeitamente distinto de qualquer outro.

Congratulo-me, especialmente pelo reconhecimento do Fado e por esta candidatura a Património Imaterial da Humanidade, tanto mais que após a revolução de 25 de Abril o quiseram aniquilar, associando-o ao fascismo. Mas o Fado impôs-se, conquistou jovens cantores e continua a cantar a saudade, a tragédia, a desgraça, a sina, o destino, o amor e ciúme, a noite, as sombras, a cidade, a crítica da sociedade. O fado continua, envolto no seu mistério, a cantar os sentimentos profundos da alma portuguesa.

E assim dou voz ao poeta, o fado é:

É mistério do passado
Que ainda está por desvendar
Pois ninguém diz, com certeza,
Como a gente portuguesa
O começou a cantar

Um dia Deus - Criador
Tomou saudades e amor
E amassou-os com cuidado
Mais três lágrimas tomou
Numa guitarra os juntou
Agitou e ... fez o Fado

Seja qual for a sua origem; o Fado é a Canção de Lisboa; o Fado é um património bem português, vamos preservá-lo, vamos todos juntos apoiar a sua candidatura.

Viva o Fado.

 

No âmbito da aprovação da proposta n.º 190/2010, relativa à apresentação da candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade, em Sessão Ordinária da Assembleia Municipal de Lisboa, realizada no dia 1 de Junho de 2010, a Senhora Deputada Municipal Luísa Vicente Mendes (PS), fez a seguinte intervenção:
 

Senhora Presidente, Senhores Membros da Mesa, Senhor Presidente da Câmara, Senhoras e Senhores Vereadores, caros colegas Deputados Municipais.

Em nome do PS começaria por agradecer a presença dos ilustres convidados, fadistas e músicos.

Hoje é um dia relevante para a história desta Assembleia Municipal. É o dia em que nos é proposto que aprovemos a candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade.

O Fado que é um símbolo da nossa Cidade, um símbolo de Lisboa, um símbolo da nossa alma lusitana.

Portugal, mais propriamente Lisboa, foi e é ponto de cruzamento entre diversos povos, ponto de cruzamento entre diversas culturas.

O Fado que terá nascido dos cânticos melancólicos e dolorosos dos mouros que permaneceram nos arredores da Cidade depois da reconquista cristã.

Fado, que terá chegado a Lisboa sob a forma de Lundum, música de origem africana e cantada por escravos brasileiros, reproduzida pelos marinheiros que na época de oitocentos chegavam daquelas paragens.

Fado que outros dizem ter tido origem nas Cantigas da Idade Média, nas Cantigas de Amigo, nas Cantigas de Amor, nas Cantigas de Escárnio e Maldizer.

Fado, do latim fatu, que significa destino.

Fado que cantado ou declamado nos fala de amor, nos fala da saudade, nos fala da vida do nosso povo, nos fala dos seus anseios.

Desde o Fado clássico ao Fado moderno, muitas vozes cantaram e continuam a cantar o nosso povo, com letras, umas vezes singelas, outras de grandes poetas.

Hoje ouvimos por vezes o Fado acompanhado de orquestra, mas Fado que não dispensa as sonoridades únicas da guitarra portuguesa e da viola de fado.

Realço o orgulho que é para todos nós, Assembleia Municipal no seu conjunto, e em particular para o Partido Socialista, a apresentação desta candidatura. Orgulho, que nós representantes desta Cidade não podemos deixar de sentir, que um dos símbolos de Lisboa, que um dos nossos símbolos, o Fado, deixe de ser só nosso, mas passe a ser também representativo de toda a Humanidade.

 

No âmbito da aprovação da proposta n.º 190/2010, relativa à apresentação da candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade, em Sessão Ordinária da Assembleia Municipal de Lisboa, realizada no dia 1 de Junho de 2010, o Sr. Deputado Municipal Modesto Navarro (PCP), fez a seguinte intervenção:
 

Saúdo a Mesa, o Sr. Presidente da Câmara, as Senhoras e Senhores Vereadores, caros e caras Deputadas, sobretudo saúdo os fadistas, os músicos, os profissionais do fado, os estudiosos e em especial a apresentação que foi feita pelo Prof. Rui Vieira Nery e pela Dra. Sara Pereira.

O Fado sempre foi de todo o País, a matriz essencial é Lisboa, mas nós - e lembro-me perfeitamente da infância e da adolescência - sentimos efectivamente sempre o Fado como algo que era profundamente nosso.

Agora, há uma passagem a um estádio diferente, com este trabalho científico, com todo o apoio que é dado pela comunidade, pela Cidade, pelos eleitos, que é a passagem do estudo e da ligação às estruturas associativas de forma articulada, às escolas através da aprendizagem, através dos estudo dos arquivos. Eu próprio tive recentemente o prazer de participar com a Dra. Sara Pereira, naquilo que veio a ser um compromisso assumido do Museu do Fado com a "Voz do Operário" para tratar uma questão que é essencial, e que nós não ouvíamos no tempo do fascismo, que era o Fado Operário.

E já agora que falamos aqui de combates, também vos quero dizer com toda a franqueza, durante o tempo do fascismo nós não tivemos acesso a muito daquilo que de melhor se fazia no Fado em Portugal, porque a censura existia, porque a Rádio transmitia aquilo que ao fascismo efectivamente interessava. E já que falamos de censura, então quero lembrar aqui que Amália gravou e cantou o Fado de Peniche, que foi proibido, como todos sabem. E também sabem que o Alain Woman foi expulso de Portugal pela PIDE, exactamente pelas actividades e pela influência extremamente positiva do ponto de vista estético e de conteúdos que introduziu também ao Fado, à canção portuguesa.

Portanto, vejamos tudo isto como uma grande identificação de todos nós e um passo em frente no sentido da candidatura, desde logo, do Fado como Património Cultural Imaterial da Humanidade, que a todos nos orgulha. Para nós esta proposta é perfeitamente clara, e vai ser, só pode ser, aprovada por unanimidade e aclamação nesta Assembleia Municipal.

Mas quero aqui falar de gente que esteve e está ligada ao Fado, alguns dos quais estão presentes. Queria falar de um homem que foi fundamental na nossa educação, o Carlos Ramos, que tinha um programa na televisão, queria falar do Alfredo Marceneiro, que nos marcou com as suas histórias, e esse eu ainda o conheci em Lisboa, depois de 1963, e de outras figuras como Carlos do Carmo, João Braga, José Carlos Ary dos Santos, Lucília do Carmo, Argentina Santos, e tantos e tantos fadistas, homens e mulheres, que realmente deram a vida a essa forma de expressão extremamente portuguesa, que se encontrava nas colectividades e que se continua a encontrar nas colectividades e aí é cantado.

Mas queria dizer-vos que é importante que se revitalize o conhecimento do Fado Operário, porque eu lembro-me ainda dos mestres das oficinas que o cantavam no tempo do fascismo, mas não o cantavam publicamente. Cantavam-no de forma reservada porque era logo motivo de prisão cantar aquelas letras de revolta, letras da República, letras de resistência e de combate àquilo que era a ditadura fascista.

Portanto, estamos todos de parabéns, vamos votar favoravelmente esta proposta e agora todos vamos empenhar-nos no trabalho de desenvolvimento desta candidatura e na sua vitória.

 

No âmbito da aprovação da proposta n.º 190/2010, relativa à apresentação da candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade, em Sessão Ordinária da Assembleia Municipal de Lisboa, realizada no dia 1 de Junho de 2010, a Senhora Deputada Municipal Maria Clara Silva (CDS-PP), produziu a seguinte intervenção:  

Exma. Senhora Presidente da Assembleia Municipal, Senhor Presidente da Câmara, Senhores Vereadores, caros Deputados, caros Senhores fadistas, poetas, autores, músicos, autores e público em geral.

O CDS regozija-se com esta proposta e, embora a aplauda e esteja completamente de acordo, não pode deixar de aproveitar este momento marcante para o Fado e sublinhar algumas questões para reflexão.

Segundo a Convenção Cultural Imaterial da Humanidade, a sua redacção refere: "Tesouros Humanos Vivos, Línguas em perigo no Mundo e na Música Tradicional".

O Fado, na nossa perspectiva, não está em vias de extinção, nem corre o risco de se perder nas estradas da poeira.

Há somente 10 a 12 anos que o Fado começou a integrar os Estatutos do Ministério da Cultura, pois até lá não foi tratado com a dignidade e dimensão que merece; era retratado como um "parente" de mau porte, de quem não sabia ler, nem escrever e como tal nunca deveria entrar nos salões da elevada intelectualidade.

Actualmente, o Fado exprime-se de imensas formas, em sinergias com instrumentos e géneros musicais invulgares à sua história, cantado por uma nova geração de interpretantes.

O Fado corrido, menor e mouraria ou vadio poderiam encontrar-se em perigo, o que não é verdade, porque como sabemos não há ninguém que não o cante, servindo até de prova máxima a qualquer iniciado.

O Fado deve ser todo ele protegido. Portugal deve dar o exemplo nessa protecção. É preciso que as entidades oficiais, organismos públicos e associativismo defendam o Fado e o lugar que ele deve ter na História e Identidade de Portugal além fronteiras.

É importante que a candidatura traga benefícios ao Fado e às suas gentes: fadistas, guitarristas, poetas, às casas de fado legalizadas e cumpridoras dos seus deveres, que divulgam ao mundo tão grande património cultural, atraindo turismo que gera riqueza para o País e que é fundamental que tenha algum reconhecimento nacional.

O Fado tem dignidade própria e como tal deve ser ouvido, escutado, sentido e interiorizado nas casas de fado, elas sim, nascidas para esse fim, porque elas serão capazes de manter a verdadeira essência do Fado, para que o imortalizem para hoje termos a honra de propor a sua candidatura a Património Cultural e Imaterial da Humanidade.

Vemos com agrado a introdução do fado nos currículos do básico ao superior, através de aulas em que colaborarão os artistas, compositores e autores. São eles, melhor que qualquer docente, que poderão transmitir a alma, o significado e a matriz do Fado tradicional, para que fique na memória também dos mais novos, para que se orgulhem daquilo que é seu.

O CDS-PP propõe uma divulgação global do Fado, uma maior projecção na Agenda Cultural de Lisboa, do apoio essencial da Câmara Municipal aos seus agentes na Cidade, no Ministério da Cultura e Secretaria de Estado do Turismo, dentro e fora das nossas fronteiras, para bem da cultura, da economia e do ego de um povo que o merece.

O Fado não é só uma canção nacional mas também internacional. Há que amá-lo e protegê-lo, porque dignifica a nossa cultura e abre-nos ao mundo a que pertencemos.

O Fado são os fadistas, os guitarristas, os músicos, as casas de fado, são poesia, sentimento e são, acima de tudo, nossos. São de Portugal.

 

No âmbito da aprovação da proposta n.º 190/2010, relativa à apresentação da candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade, em Sessão Ordinária da Assembleia Municipal de Lisboa, realizada no dia 1 de Junho de 2010, o Sr. Deputado Municipal João Bau (BE), produziu a seguinte intervenção:  

Senhora Presidente, Senhores Membros da Mesa, Senhor Presidente da Câmara, Senhores Vereadores, Senhoras e Senhores Deputados, permitam-me que comece com um a saudação aos artistas do Fado, aos cantores, aos músicos, aos estudiosos, em especial aos que estão aqui hoje connosco.

Estamos hoje a analisar uma proposta, aprovada por unanimidade em Sessão da Câmara Municipal, para a apresentação, junto da UNESCO, da candidatura do Fado a Património Cultural da Humanidade, proposta essa que, evidentemente, merece o nosso apoio.

Este género de canção urbana, porventura nascida no início do Século XIX, foi evoluindo ao longo dos anos, em íntima relação com a evolução do nosso País nos domínios económico, social, político. Mas ao longo desta evolução o Fado ocupou sempre um lugar especial no coração dos portugueses e, mais particularmente, dos lisboetas.

Também no âmbito internacional se pode constatar que o Fado é, desde há muitos anos, um símbolo mundialmente reconhecido de Portugal, e que os seus principais intérpretes (desde Amália Rodrigues) são apreciados nos cinco continentes.

Estamos hoje longe da situação criada pelo Estado Novo salazarista relativamente ao Fado, e que eu conheci na minha meninice, na minha infância e no princípio da minha idade adulta. O Estado Novo inicialmente não valorizou este género musical, restringiu muito a sua utilização em iniciativas oficiais com algum impacto público. Salazar chegou a confidenciar que achava o Fado deprimente.

O Prof. Rui Vieira Nery analisa muito bem este período do salazarismo e a sua relação com o Fado nas suas obras, e eu vou recorrer a ele, com a devida vénia, para a minha intervenção.

Ensina-nos Rui Vieira Nery que foi apenas após a vitória dos aliados na 2ª Grande Guerra que o regime salazarista "descobriu" finalmente o Fado e o procurou incorporar, a partir de então e tanto quanto possível, no seu discurso cultural populista. Este discurso cultural, ainda citando Nery, compreendia: "o nacionalismo e o bairrismo primários, o acatamento explícito e acrítico da autoridade do Estado ou mesmo o desinteresse de princípio pela política, a aceitação de um destino individual inelutável e de um status quo social inalterável, compreendia o refúgio numa religiosidade despida de outros laços de solidariedade e empenhamento comunitários que não os da caridade formal, a exaltação dos méritos espirituais da pobreza, a celebração da estrutura de poder da família patriarcal, das virtudes da submissão feminina e da disciplina no trabalho".

Ainda segundo Nery "o Fado tende então a entrar num verdadeiro ciclo vicioso de assuntos recorrentes, na sua maioria traduzindo uma postura eminentemente passadista. No plano dos princípios morais verifica-se a reafirmação de uma ética marialvista, que incorpora como valores nucleares a afirmação de estereótipos opostos de virilidade e feminilidade e do princípio fundamental da subordinação feminina. E na evolução da poética fadista é permanente a insistência numa postura cívica de conformismo, de aceitação passiva da realidade social e política como dados de um destino inelutável, o que em muitas letras se associa expressamente à exaltação moral das virtudes intrínsecas da pobreza".

O Estado Novo não arregimentou nem o Fado nem os fadistas, - ainda há pouco o Deputado Modesto Navarro deu-nos exemplos concretos desse facto - mas conseguiu uma redefinição temática do Fado, definição essa que ainda de acordo com Rui Vieira Nery "nem sequer decorreu de quaisquer directrizes político-ideológicas expressas por parte do regime. A simples exclusão pela censura de todas as temáticas que pudessem conter ainda alguns sinais de anteriores tendências de contestação da ordem social dominante, veio ampliar artificialmente componentes que eram até então meras vertentes parcelares do todo, muito mais complexo do imaginário poético do Fado, e que nesta sua ampliação forçada, pela exclusão das demais facetas que as equilibravam no seio desse imaginário, acabaram por o deturpar, no seu conjunto, de forma significativa".

Foi a revolução democrática do 25 de Abril que, após um inevitável e compreensível período de desencontro com o Fado, permitiu que este reocupasse, por direito próprio, o seu espaço no contexto cultural nacional, que recuperasse a sua diversidade temática e que começasse a percorrer novas etapas da sua evolução.

Constata-se que, no momento presente, a par dos consagrados, sempre apreciados e alguns deles parecem até melhores do que nunca, existe uma plêiade de novos e novas fadistas de grande valia, um conjunto de músicos profissionais de valor reconhecido e que poetas de grande mérito aceitam escrever poemas expressamente para serem cantados.

Constata-se, ainda, que surgem estudos de investigação de grande interesse centrados na temática do Fado. A própria história deste género musical, muito embora ainda haja muito para estudar e esclarecer, deu passos muito significativos.

Abriu, entretanto, as suas portas ao público em Lisboa, em 25 de Setembro de 1998, o Museu do Fado, que se apresenta na Internet como celebrando o valor excepcional do Fado como símbolo identificador da Cidade de Lisboa, o seu enraizamento profundo na tradição e história cultural do País, o seu papel na afirmação da identidade cultural e a sua importância como fonte de inspiração e de troca inter-cultural entre povos e comunidades.

É neste contexto de reencontro do Fado com as suas raízes e com o seu legado, de afirmação da sua grande vitalidade, com os seus novos interpretes, os seus novos poetas, os seus novos compositores, da manifestação do interesse no estudo do Fado por parte de académicos, de abertura do Museu do Fado e de reafirmação do continuado entusiasmo do público, que surge a proposta para que Lisboa, inegavelmente a capital do Fado, apresente junto da UNESCO a candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade.

É uma proposta que saudamos e apoiamos, e que surge no momento certo.

Senhora Presidente, Senhores Deputados.

Permitam-me que faça aqui uma breve reflexão sobre um tema que entendo que interessa à música portuguesa, não apenas ao Fado, mas também.

Inicia-se em breve o Campeonato do Mundo de Futebol, é uma prova que vai centrar a atenção de centenas de milhões de pessoas no mundo, é uma prova em que a acção da equipa nacional vai interessar, não apenas aos portugueses, mas aos povos de Língua Portuguesa, e em muitos dos países de Língua Portuguesa a acção da Selecção Portuguesa vai ser seguida com especial carinho, como todos nós sabemos.

Pois aparece-nos como a música oficial da nossa Selecção Nacional, neste Campeonato do Mundo, uma canção norte americana de um grupo de hip hop, de Los Angeles, na Califórnia, e essa escolha é justificada - ouvimos isso repetidamente na Rádio - "porque era preciso criar uma imagem moderna e dinâmica da nossa Selecção". E para criar uma imagem moderna e dinâmica da nossa selecção, não há em Portugal música? Não há em Portugal músicos? Não há em Portugal autores? É preciso ir buscar uma banda de hip hop a Los Angeles!

Para mim é claro que isto demonstra a debilidade cultural, a impreparação e a incapacidade para liderar projectos que se assumem como de representação nacional, do ou dos responsáveis por este dislate. E eu acho que a discussão desta proposta, hoje, nesta Assembleia, serve também como contraponto a este triste episódio.

Esta candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade aposta na nossa língua, nos nossos intérpretes, nos nossos compositores, nos poetas da Língua Portuguesa, na Guitarra Portuguesa. Assume que a Música Portuguesa, neste caso o Fado, é uma componente importante do nosso património cultural, e é um factor, evidentemente entre muitos outros, da identidade nacional.

Esta candidatura é também um testemunho de que consideramos que a afirmação do nosso património cultural é também a afirmação de um património que oferecemos a todos os outros povos, que é património de toda a humanidade.

Afirmei anteriormente que a candidatura que temos em análise vem em boa altura, que é um passo num processo de afirmação cultural. Quando o Fado afirma a sua vitalidade, quando se fazem estudos académicos sobre a sua história e o seu significado, é um passo após a abertura do Museu do Fado em Lisboa, mas esta candidatura é também um oportuno contraponto para o dislate de se apresentar uma canção cantada por uma banda estrangeira, numa língua que não é a nossa, como sendo a adequada à construção de uma imagem moderna e dinâmica de uma representação nacional.

 
No âmbito da aprovação da proposta n.º 190/2010, relativa à apresentação da candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade, em Sessão Ordinária da Assembleia Municipal de Lisboa, realizada no dia 1 de Junho de 2010, o Sr. Deputado Municipal Gonçalo da Câmara Pereira (PPM), produziu a seguinte intervenção:
 

Exma. Senhora Presidente
Da Assembleia Municipal
Sr. Presidente da Câmara
Vereadores e Deputados da nossa Capital

Estamos aqui a votar
O Fado a Património Municipal
Sou fadista faço-o a cantar
Por isso não me levem a mal

O Fado que é canção do povo
Mal visto pela burguesia
Tinha o verso sempre novo
Para gáudio da freguesia

Notícias da ladroagem
Dos crimes de sangue e político
Era uma franca amostragem
Do verdadeiro sentido crítico

E hoje quando os jornais
São todos da situação
É bom que se promova
Este tipo de canção

Pode ser que os portugueses
Vejam que há oposição
E quem lhes quer tirar direitos
Que caia da cadeira ou do cadeirão

O Fado não é monárquico
Nem é republicano
Sempre quem o cantava
Era considerado um insano

Mas no Fado tudo se canta
Ao Fado tudo se diz
Música que a todos encanta
É a voz do nosso País

Já cantavam os nossos reis
Sobre os amores, sobre Lisboa
Hoje cantam versos notáveis
De Camões e de Pessoa

P'ra cantar já o poeta dizia
Que bastava só ter garra
E que para som satisfazia
A viola e a guitarra

Esqueçam-se lá dos tambores
Dos violoncelos e dos violinos
Que o Fado do Minho aos Açores
É p'rás meninas e p'rós meninos

Agora vai ser do mundo
E para todas as idades
E como "Ser mais profundo"
Entrar nas universidades

E as minhas palavras de apreço
A quem disto se lembrou
A cultura não tem preço
Quando do povo brotou

E já agora que esta música
Se tornará universalista
Não se esqueçam caros amigos
Da nossa querida revista

Foi lá que se tornou
Esta canção nacional
Por isso merece um cantinho
Para cumprir Portugal

Exma. Senhora Presidente
Eu mais tinha para contar
Mas digo-lhe que estou contente
Só para ver isto, foi bom aqui estar.

 

No âmbito da aprovação da proposta n.º 190/2010, relativa à apresentação da candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade, em Sessão Ordinária da Assembleia Municipal de Lisboa, realizada no dia 1 de Junho de 2010, o Sr. Deputado Municipal John Rosas (MPT), fez a seguinte intervenção:  

 Senhora Presidente, Senhor Presidente da Câmara, Senhores Vereadores, caros colegas.

O que é que posso dizer? Nada! Cantar não consigo, portanto, em nome do MPT, gostaria só de agradecer a presença dos Ilustres Senhores convidados, e trabalho feito pelo Prof. Rui Vieira Nery e pela Dra. Sara Pereira.

Como é óbvio, o Grupo Municipal do Partido da Terra vai manifestar o seu apoio, vai apoiar a proposta 190/2010, a Candidatura do Fado a Património Mundial, pois como já fora dito aqui hoje, o Fado não é só um grande elemento da cultura lisboeta, como também de Portugal.

Gostaria também de dizer que o MPT espera que a elevação do Fado a Património Cultural da UNESCO não signifique que outros aspectos culturais e histórico-culturais de Lisboa sejam esquecidos, porque há muitos outros aspectos em Lisboa e da cultura lisboeta que achamos que precisam de investimento, precisam de ser cuidados.

Mais uma vez gostaria de agradecer a todos, e dizer que o Partido da Terra encontra-se sempre disposto a defender a cultura, mas não a todo o preço.



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